Por Henry Berger*
De forma nunca antes vista pela humanidade, a ciência avança na compreensão dos mistérios do DNA, também conhecido como a molécula da vida. Encontrado no interior das células de seres vivos, em bactérias e na maioria dos vírus, o DNA contém toda a informação genética necessária para determinar as características de cada organismo. Ou seja, o DNA é a informação que codifica e explica a vida (ou boa parte dela) em nosso planeta, e sua crescente compreensão tem proporcionado grandes revoluções em diversas áreas, especialmente na saúde humana, na produção de alimentos e também na produção leiteira.
Nessa atividade, o conhecimento já disponível sobre o DNA dos mamíferos possibilitou o desenvolvimento de sofisticadas análises genéticas para bovinos, baseadas na tecnologia de marcadores moleculares, que podem revelar ao produtor informações valiosíssimas sobre o seu rebanho. Informações como potencial genético para produção total de leite e de sólidos (importante critério de bonificação em laticínios), proteínas do queijo, longevidade produtiva e reprodutiva, enfermidades genéticas (como BLAD, CVM, DUMPS), resistência à mastite (Contagem de Células Somáticas), entre outros dados que podem ser usados para elevar a produtividade das fazendas, melhorar a qualidade do leite e a rentabilidade do produtor.
Os primeiros testes genéticos do gênero começaram a chegar ao Brasil em 2005, por intermédio da Merial Saúde Animal, que decidiu investir pesado no desenvolvimento da tecnologia de análise de DNA bovino. A organização é hoje a com o maior e mais completo painel de testes genéticos para pecuária de leite e de corte, para raças taurinas e zebuínas Todos estes painéis contam com a devida validação (processo experimental estatístico que audita a confiabilidade da tecnologia em grupos genéticos e sistemas de produção específicos) respaldada por instituições de peso, como Universidade de São Paulo (GMA - Pirassununga), Embrapa Gado de Leite e diversas universidades e instituições de pesquisas dos Estados Unidos e Europa.
Mas, afinal, o que é análise de DNA? Como é feita? Para que serve? Como é a sua utilização? Como os produtores têm dela se beneficiado? Como vem sendo a aceitação e a adaptação dos produtores à nova tecnologia? E qual é o impacto que provoca à produção leiteira e à sustentabilidade da pecuária?
Assim como as familiares PTAs (Predicted Transmiting Ability), a análise de DNA é mais uma ferramenta auxiliar de seleção, que permite identificar os animais com os piores e os melhores potenciais genéticos para os marcadores conhecidos e validados em determinadas características produtivas. Com essa informação, o produtor pode antecipar uma série de tomadas de decisões na fazenda. Pode, por exemplo, orientar antecipadamente o processo de descarte e reposição dos animais de acordo com seus objetivos de seleção, orientar os manejos nutricionais e de ordenha da fazenda e até a aquisição/venda de produtos de alto valor genético.
Embora haja diferenças entre a tecnologia de marcadores moleculares e as demais ferramentas de seleção quantitativa, é fundamental frisar que elas são complementares entre si. Os marcadores não substituem as PTAs, mas devem ser utilizados em conjunto com estas. Isso porque as PTAs apresentam uma série de potencialidades que deverão sempre e a cada dia ser mais exploradas, embora denotem limitações que podem ser supridas por informações advindas dos marcadores moleculares. O contrário também é verdadeiro e esta complementaridade oferece ao produtor de leite possibilidades muito interessantes de incrementar significativamente o progresso genético do rebanho.
Com a análise de DNA é possível se estimar o potencial genético, para os marcadores conhecidos e validados, de um animal logo após o nascimento, sendo possível identificar aqueles que melhor atendem ou não aos critérios definidos do melhoramento genético. Desta forma, o produtor tem, diante de si, a possibilidade de concentrar investimentos apenas nos animais de potencial desejável, e assim economizar muito dinheiro e tempo, antes da comprovação do sucesso ou do fracasso produtivo destes animais. Outro benefício importante: enquanto as ferramentas quantitativas avaliam, em geral, o mérito genético de machos, a análise de DNA contempla igualmente a avaliação de machos e fêmeas. Isso pode trazer muito mais precisão aos acasalamentos e aumento significativo da freqüência dos genes favoráveis no rebanho, pois estão em questão as combinações possíveis entre os genes do pai e da mãe (genética mendeliana) na constituição da cria. Por isso, é possível prever com maior segurança o resultado de um acasalamento, principalmente em características de baixa herdabilidade.
Outra contribuição importante da análise de DNA é a possibilidade de incorporar ao melhoramento genético novos objetivos de seleção. Especialmente características consideradas de baixa herdabilidade ou de difícil mensuração, normalmente não analisáveis por meio da genética quantitativa. No caso da pecuária leiteira, podemos citar alguns exemplos bastante palpáveis: a possibilidade de se selecionar animais resistentes à mastite e de animais mais longevos e reprodutivamente mais eficientes.
No Brasil, cada vez mais os produtores tem descoberto as vantagens da análise de DNA. Mas cada projeto tem se utilizado da tecnologia da maneira que melhor atende aos seus objetivos econômicos. Há produtores que, além de melhorar características como longevidade produtiva, reprodutiva e produção leiteira, têm utilizado a tecnologia para aumentar o percentual de sólidos e assim aproveitar as bonificações oferecidas por laticínios. A informação genética também tem sido utilizada para identificar grupos de vacas em condições de responder melhor às dietas formuladas para elevar o percentual de sólidos no leite. Produtores de queijos têm procurado selecionar animais com maior potencial de proteínas essenciais (kappa e beta caseína e beta lactoglobulina) na fabricação destes lácteos de alto valor agregado.
A análise de DNA tem transformado a pecuária leiteira não só no sentido de elevar a produtividade das fazendas, mas também de agregar cada vez mais qualidade e valor ao produto final. Mas tudo isso com foco em eficiência, que é a grande responsável pela viabilidade econômica das propriedades. Certamente este é só o início das muitas e transformações que esta tecnologia trará à pecuária leiteira.
*O autor é médico veterinário e gerente IGENITY para América Latina, da Merial Saúde Animal
- Mais informações pelo telefone 0800 888 8484 ou pelo site www.merial.com.br.